As Crianças e a Natureza

«… Agora vejo o segredo da criação das melhores pessoas…»

Walt Whitman

 

Quando éramos crianças e vivíamos fora da cidade, nunca ouvíamos falar de «Natureza», bem, só se fosse ocasião de escrever uma redação sobre as estações do ano…então deveríamos dizer que a natureza desabrochava em flores e ninhos (versão março) ou se deitava no escuro dos cobertores de folhas secas e adormecia com frio (versão novembro). As plantas e animais mereciam atenção pelo que «nos davam», desde a sombra fresca nos dias de calor ao leite com que se fazia o queijo e o leite em pó, considerado uma invenção estranha e dedicada a bebés doentinhos.

Os terrenos eram cultivados e só os grandes betinhos não tinham as suas tarefas atribuídas, cresciam sem saber como a azeitona enregela os dedos ou as uvas maduras pesam cada vez mais nos baldes cheios. Também não sabiam como as unhas ficavam negras por comermos tantas cerejas e qual a passarada que cantava de dia e se calava de noite.

 

A natureza eram as matas onde íamos aos míscaros

e as veredas com os muros cobertos de amoras

 

A natureza eram as matas onde íamos aos míscaros e as veredas com os muros cobertos de amoras. Quem se levantava cedo, via melros a tomar banho em poças e dezenas de minhocas a acasalar sobre a terra lavrada, ao anoitecer os morcegos apareciam com as suas habilidades e os corta-cebolas não paravam de ralhar. Nesses dias descuidados, a água tinha um tempo de jorrar e outro de faltar nos poços, sempre o desejo de equilibrar as vantagens de qualquer das situações – sol na eira, chuva no nabal – supondo que se caminhava para o momento de tudo se resolver. Muito do que desconhecíamos, seria já importante mas não o podíamos adivinhar…

 

…um planeta inteirinho que é da nossa responsabilidade

 

As crianças pequenas vivem inquietas com os perigos da poluição, a necessidade de separar e reciclar, o buraco na camada de ozono e outras realidades que se impõem e é sensato ter em conta. A própria Escola desenvolve esforços para dar a conhecer os modos de funcionamento naturais, com germinações em algodão molhado, hortas pedagógicas e árvores postas no Dia apropriado, além de visitas a parques e palestras. Estas iniciativas, sendo todas ajustadas aos desígnios da aprendizagem, não produzem o conhecimento do que vale a harmonia de cada um com a natureza, da capacidade da criança que predomina ou subsiste em nós, de encontrar um sentido pessoal para valorizar a sua existência enquanto parte de um todo, feito de outros, iguais e diferentes, e um planeta inteirinho que é da nossa responsabilidade.

 

Tarefas reais e plausíveis,

tão instrutivas como cem palestras

 

Tão instrutivo como cem palestras, seria cada um de nós viver duas semanas em cada ano, no campo, com uma experiência de tarefas reais e plausíveis, junto de pessoas que vivam para o cultivo da terra. Sentir o cansaço e o prazer, de semear ou colher, alimentos ou flores, é uma experiência benéfica que estrutura o entendimento do mundo.

Felizes os que conheceram o campo, sem depender da agricultura para sobreviver, e puderam crescer com respeito e estima pelo animal que comemos, a planta que cresce e, acima de tudo, pelo esforço daqueles que todos os dias saem da cama para zelar por tão dura tarefa.

A epígrafe pertence ao poema Cântico da Estrada Larga (1856), de Walt Whitman.

 

Maria dos Prazeres Rovisco in Ar Livre, da Associação Campo Aberto