carta aos alunos, para lerem quando forem mais crescidos

Meus amiguinhos

 

Quando uma professora recebe uma nova turma, há uns dias, não por muito tempo, em que o grupo é um todo, quero dizer, as caras e os nomes ainda estão um pouco confusos. Eu tive sorte, já vos conhecia, desde o primeiro dia em que entraram coladinhos aos pais e os recebi a todos.
Ao longo do vosso 1º ano fui conhecendo logo os que tinham irmãos na minha turma e, aos poucos, todos os outros. Quis muito ficar com a W4 e assim aconteceu!
A turma tinha vinte e quatro alunos, uma pequena multidão de meninas e um grupo de rapazitos!
Sempre vos disse que são uns sortudos, cada um de vós leva na bagagem para a vida  duas condições que muito facilitam o sucesso – uma família maravilhosa e uma boa escola. Por favor… agora é o esforço de querer aprender e singrar (ver no dicionário) que vos compete.

 

No 2º ano, alguns queixavam-se que eu nunca punha “certos” e tinham razão, mas quero  agora explicar que quando a professora marca uns grandes e vermelhos certos a uns, terá que marcar uns tristes e inúteis “mal” a outros e, na verdade, nenhum garoto pequeno precisa de corar  ao ver o seu trabalho condenado. Mais tarde, quando começam a compreender que o estudo é  a vacina contra a ignorância e que podem ultrapassar as dificuldades se empenharem nisso as energias  indispensáveis, já se justifica melhor. Além do mais, a vida dos adultos, quase toda, está organizada de modo a que há sempre alguém para dizer o que está mal e, às vezes, não se encontra quem nos ajude a progredir. Isto traz a questão seguinte.

 

Em cada criança estamos sempre a descobrir capacidades surpreendentes e a desejar que cada uma encontre o seu próprio caminho, não há melhor maneira de crescer. Vem isto a propósito de outra explicação que vos devo, parece-me que agora podem entender melhor o que vou dizer. Sabem que cada pessoa, pequena ou grande, tem necessidade de se distinguir do grupo, isso até a ajuda a ser aceite e, principalmente, a aceitar-se como sujeito digno de respeito e amizade. Por saber isto, procurei propor-vos trabalhos variados – além dos trabalhos de português e matemática, o desenho, a pintura, o teatro, a poupança, o imaginar e dizer, a música, a ciência, a pesquisa, as novas tecnologias – que fizessem apelo a um grande leque de capacidades e interesses, para que cada um encontrasse, todos os dias, um novo desafio a vencer e algo de agradável e estimulante. Bem sabem como detesto rotinas maçadoras!

 

Não há duas sem três, ensinam os contos de fadas e nós acreditamos, por isso aqui fica a terceira explicação. Confessem, nunca pensaram que estivesse tanto por dizer…

Muitas vezes aconteceu, tirar ao intervalo os minutos que tínhamos perdido de manhã ou exigir acabar uma tarefa antes de sairmos à tarde. Os avós e os pais cheios de paciência, à espera, a suspirar “ A professora nunca mais acaba…”. Alguns meninos não gostavam nada, principalmente quando os mandava melhorar os trabalhos, achavam que não devia ser assim mas estavam enganados. Uma das aprendizagens mais importantes para a nossa vida é a persistência no trabalho, a compreensão de que realizar uma tarefa implica a qualidade do resultado e aproveitar o tempo que temos disponível para ela. Aos poucos vamos descobrindo que a dedicação ao que estamos a fazer, o esforço que nos é pedido para conseguir a eficácia e a capacidade de avaliar sensatamente o resultado alcançado  são os ingredientes para construir algo sólido. Reparem que não estou a referir-me apenas à escola….

 

Ainda tenho o Livro das Árvores e quando o folheio, combinando os troncos e copas, encontro-nos de novo, ouço uma longínqua sineta que convida ao silêncio e sorrio.

 

Professora Maria dos Prazeres Rovisco